terça-feira, 18 de novembro de 2014

A náusea da solidão

E depois da plenitude, o vazio.
Depois do néctar, a dor na boca do estômago.
Depois da companhia, apenas uma taça.
Depois do gozo, a solidão.

"Depois de ter você, pra que querer saber que horas são?!"

Eu , a Papa, o absolvo, Salieri!

Ó Deus dos desgraçados,
Deus dos medíocres,
Deus que fez Salieri meu santo protetor
Que me absolve os pecados

Dentro da mais alta mediocridade
Fazei com que eu seja pelo menos como ele
Ele que mais que qualquer outro,
Sabia, entendia, apreciava e reconhecia
A harmonia, o som do céu...

Fazei que seja eu também ao menos
Apreciadora do que há de bom.
Fazei que eu reconheça, saiba, aprecie, goste, goze
Com o que há de melhor...

Quem sabe assim,
Ao desejar algo tão medíocre,
Ganhe ao menos, o lugar do Salieri
De maior dos medíocres já existente!
Quem sabe assim, seja eu uma Papa,
Renovando a mediocridade
e revolucionando a religião patriarcal.

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

IFPI




segunda-feira, 21 de julho de 2014

À Flor da pele



À flor da pele...
todos os sentimentos presentes no corpo.
A sensação de perda, soltando o intestino.
As palavras de rejeição, revirando o estômago.
O silêncio do outro, deixando trêmulas as mãos.
A necessidade de carinho, levando a fome embora.
A vontade de ouvir "eu te amo", medo de estar só!

Fera Ferida



Homem e bicho é tudo igual
Cheira, roça, se alivia.
Instintos vivos e selvagens!
Mesmo quando machucado,
ainda assim, iguais.
Animais acuados, 
feras feridas
e agressivas.
O bicho homem,
no corpo, na alma e no coração!

domingo, 20 de julho de 2014

Pôr do Sol




Eram seis da tarde; pôr do sol. 
Fruição e desejo pairavam no ar. 
Atribuições e conteúdos morais 
ainda ecoavam em seus comportamentos, 
no entanto, ardiam em excitação. 
Não resistiram, 
porque resistir é apelo de Apolo, 
e no momento,
o que mais havia de instintivo acordara 
e estava faminto! 
O vinho, com seus taninos 
decorando a boca e a carne da menina 
que tremia de arrepios... 
Os gozos do momento 
que saíam como notas musicais, 
embalavam a dança dos quadris... 
e adornavam a cena,
que se materializava 
em meio a névoa...

sexta-feira, 7 de março de 2014

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Manifesto de conjuntura da Marcha Mundial de Mulheres do Rio de Janeiro

Nós, mulheres e feministas da Marcha Mundial das Mulheres, vimos, mais uma vez, a público expressar nosso total repúdio à criminalização da Política, dos movimentos sociais, das/dos militantes e das/dos ativistas que ocupam as ruas da cidade do Rio de Janeiro desde Junho de 2013 contra o agudo processo de mercantilização e privatização do espaço urbano que estamos vivendo, pela redução do custo de vida, assim como por mais e melhores políticas sociais e por mais e melhores serviços públicos.

Acreditamos que as manifestações dos últimos meses evidenciam uma inflexão na política nacional e refletem o acirramento de contradições inevitáveis à realidade de um país capitalista governado por um partido político de esquerda, que, através de uma plataforma pós-neoliberal, abandonou a tônica de gerenciamento do Estado, e adotou, ao contrário, uma postura voltada à intermediação das relações entre capital e trabalho, implementando políticas para o desenvolvimento tanto econômico quanto social.
Artista: Alex Frechette, "Manifestações Diárias".
Artista: Alex Frechette, “Manifestações Diárias”.
Consideramos, no entanto, inaceitável o silêncio do poder público e a cegueira das autoridades no que tange a situação de extrema violência e violação dos direitos humanos civis e políticos instalada no Rio de Janeiro, que atribuímos à atuação draconiana da Polícia Militar sob orientação dos governos estadual e municipal. A Polícia, o Estado e o Município devem ser responsabilizados pelas mortes e acidentes, de maior ou menor gravidade, lamentavelmente ocorridos durante os protestos.
Referendamos, nesse sentido, a Proposta de Emenda Constitucional n. 51 (PEC-51), pela desmilitarização da Polícia Militar, encaminhada pelo senador Lindbergh Farias (PT-RJ) à apreciação do Congresso. Não nos iludimos, todavia, sobre ser esta a solução definitiva para o problema da violência institucional. Pois essa violência tem perfil estrutural, sendo consequência da centralidade do capital em nossas vidas e de um discurso de segurança que prioriza a proteção da propriedade privada relegando a segundo plano os direitos e os interesses da população, além de contribuir para a reprodução de uma economia política de guerra que beneficia de milicianos a grandes empresários do setor.
Sabemos que as/os atingidas/os por esse tipo de política repressiva, que olha para a questão social como um problema de polícia, tem cor (negra), classe (pobres) e ideologia. Por isso, pontuamos que as ações pelo fim da violência institucional são de enorme complexidade. Todavia, entendemos que a PEC-51 constitui, sem dúvida alguma, um primeiro e importante passo.
Rejeitamos veementemente o Projeto de Lei Anti-Terrorismo, n. 499, proposto por uma comissão parlamentar mista, e o Projeto de Lei Sobre Crimes de Desordem, apresentada pelo secretário municipal de Segurança, José Mariano Beltrame, ao Senado. Com a justificativa de proteger a democracia, essas iniciativas aviltam e acabam por retroceder a mesma em nosso país. O apoio de parlamentares de esquerda a tais medidas mancha o passado de lutas desse campo em prol da democracia, incidindo tristemente sobre a memória de companheiras e companheiros presas/os, torturadas/os e assassinadas/os durante a ditadura militar brasileira.
Sentimos e apresentamos condolências à família e aos amigos do senhor Tasman Accioly e do cinegrafista Santiago Ilídio Andrade pela perda trágica de ambos durante a manifestação contra o aumento das passagens ocorrida no dia 06/02 na Central do Brasil, Rio de Janeiro. Estes casos devem servir, subvertendo o tipo de repercussão por eles alcançada, para fortalecer as denúncias em relação as cerca de 25 mortes e às centenas de feridos nos protestos do Rio de Janeiro em função da violência policial.
Acusamos a enorme irresponsabilidade da mídia corporativa na abordagem desses casos, uma vez que ela, apressando-se em estabelecer um julgamento sumário extrajudicial, além de manipular imagens e informações, produzindo provas falsas, logo, criminosas, atrasa, e possivelmente confunde, o trabalho da Justiça.
Prestamos solidariedade às companheiras e aos companheiros do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), que têm sido alvejados por calúnias irresponsáveis, cujo único objetivo é deslegitimar a atuação de partidos políticos de esquerda, de lutadoras e lutadores sociais, evitando, assim, uma nova onda de manifestações na cidade em prejuízo dos megaeventos que se encontram no horizonte e também dos interesses eleitorais das classes dominantes.
Reiteramos que a pauta de lutas do movimento feminista em favor de uma melhor cidade para todas e todos se encontra inteiramente de acordo com o que foi apresentado pelo força multitudinária que tem tomado as ruas e agitado a agenda política carioca nos últimos meses. Incentivamos a ocupação do espaço público com política.
Reivindicamos que tal ocupação, assim como a circulação nas ruas, se dê livre de constrangimentos, sejam eles de classe, de raça ou de gênero. Exigimos uma maior oferta de serviços e equipamentos públicos adequados à existência na cidade, sob igualdade de condições, de mulheres e homens. Defendemos, por isso, o passe livre como um direito à identidade e à territorialidade. Demandamos creches e lavanderias públicas como forma de compartilhar o trabalho do cuidado que, hoje, recai prioritariamente sobre nós, mulheres.
Lutaremos até o fim pelo direito de opinião, reunião e manifestação, amparados pela Constituição Federal de 1988, contra práticas opressivas e repressivas por parte do Estado sob estímulo e influência do grande capital e da classe empresarial que reivindica, hoje, a posse da cidade do Rio de Janeiro.
Continuaremos em marcha até que todas e todos sejamos livres!
Marcha Mundial das Mulheres – Rio de Janeiro

terça-feira, 24 de setembro de 2013

O Livre Pensar em Saramandaia [3]

Uma característica incrível do João Gibão, é que as asas veem acompanhadas do dom da visão. Na trama, ele vê o passado, mas também o que pode acontecer na vida das pessoas e da cidade, caso as coisas não mudem, caso elas não façam nada para mudar uma dada situação. A incompreensão acerca das visões e das denúncias é recorrente. A maioria das pessoas não enxergam suas próprias amarras, que dirá as amarras do sistema na macroestrutura. 
Assim, é que começo a refletir que o caminho da liberdade, do livre pensar, da individuação, do empoderamento diante da sociedade castradora e homogeneizante é também o caminho da visão, do olhar para além do momento, para além do óbvio, por detrás das palavras, das coisas, das estruturas. É o caminho profético que denuncia e alerta as mazelas e as desigualdades, as injustiças e subjugações. 
Essas visões refletem o olhar de quem vê à frente de seu tempo, à frente das aparências. E para isso, só mesmo quem voou para muito longe, e de cima, observou tudo o que se passa lá embaixo. Essas metáforas me lembram vários nomes... desde Jesus que foi levado pelo diabo à um lugar muito alto, até Zaratustra... Mas, independente desses, vejo que a liberdade faz a gente enxergar mais longe. E que esse olhar para além do instantâneo, do momento presente, seja também um olhar para o horizonte, para o não-lugar, para o lugar da graça e das possibilidades, para uma utopia viva e urgente.
Liberdade e livre pensar também implica em responsabilidade com o outro e com a comunidade através de uma voz profética e libertadora para todo tipo de desigualdade, moralismo e fundamentalismo.

domingo, 22 de setembro de 2013

O Livre Pensar em Saramandaia [2]


A dor de João Gibão durante toda sua vida, em ter que esconder que era uma pessoa com asas, é um sofrimento causado única e exclusivamente por contratos sociais de normalidade/anormalidade diante do que foi postulado como certo - regra, norma, lei, parâmetro -, por uns homens em detrimento de outros. E como se não bastasse a sociedade pressionar e tentar interromper o livre pensar, as pessoas que se arvoram nessa incrível experiência também se veem amarradas em ousar voos cada vez mais altos e duradouros. Quem já nasce com esse sentimento e essa perturbação dentro de si, muitas vezes se vê forçado a atar suas asas e a esconder de si mesmo sua força e virtude, o que é motivo de muita dor, tristeza e sofrimento.
E vencer a si mesmo, aos nossos medos, preconceitos, amarras... se transforma na primeira grande barreira a se transpor até alçar os voos do Ser. Mas não é fácil tentar se locomover com uma sociedade inteira (modelo de família, escola, religião, comportamento, sexualidade, trabalho, relações sociais) educando e instruindo o caminho que todos devem seguir. Os corpos são educados e castrados de tal maneira, para que se conformem a um único estado de convívio social. Imaginem as várias amarras que temos e que nem as percebemos!
Mas o espírito livre, irrequieto, clama por um quê a mais de existência, e, pouco a pouco, segue no caminho da individuação para uma vida em comunidade. A trilha, muitas vezes, é vivida sozinha, o que não significa que não haverá pessoas no caminho. Serão cruzamentos indispensáveis, mas que logo, também seguirão seus particulares caminhos. E o cruzamento com essas pessoas transformará sempre o nosso caminho, se deixarmos ser impactados por elas.
Liberdade implica se diferenciar da homogênea pasta humana fabricada pela global indústria cultural. Implica vencer antes de tudo, a nós mesmos. Implica primeiramente a nos aceitarmos e seguirmos um caminho que é exclusivamente nosso, a fim de estarmos em comunidade deixando um pouco daquilo que é exclusivamente nosso, mas também, sendo marcados por cada um e cada uma de maneira significante e subjetiva.