domingo, 29 de janeiro de 2012

O Direito ao Delírio




O que acham se delirarmos um pouquinho?
O que acham se fixamos nossos olhos mais além da infâmia, para imaginarmos outro mundo possível.


Tente adivinhar como será o mundo depois do ano 2000. Temos apenas uma única certeza: se estivermos vivos, teremos virado gente do século passado. Pior ainda, gente do milênio passado.

Sonhar não faz parte dos trinta direitos humanos que as Nações Unidas proclamaram no final de 1948. Mas, se não fosse por causa do direito de sonhar e pela água que dele jorra, a maior parte dos direitos morreria de sede. Deliremos, pois, por um instante. O mundo, que hoje está de pernas para o ar, vai ter de novo os pés no chão.

Nas ruas e avenidas, carros vão ser atropelados por cachorros.

O ar será puro, sem o veneno dos canos de descarga, e vai existir apenas a contaminação que emana dos medos humanos e das humanas paixões.

O povo não será guiado pelos carros, nem programado pelo computador, nem comprado pelo supermercado, nem visto pela TV. A TV vai deixar de ser o mais importante membro da família, para ser tratada como um ferro de passar ou uma máquina de lavar roupas.

Vamos trabalhar para viver, em vez de viver para trabalhar.

Em nenhum país do mundo os jovens vão ser presos por contestar o serviço militar. Serão encarcerados apenas os quiserem se alistar.

Os economistas não chamarão de nível de vida o nível de consumo, nem de qualidade de vida a quantidade de coisas.

Os cozinheiros não vão mais acreditar que as lagostas gostam de ser servidas vivas.

Os historiadores não vão mais acreditar que os países gostem de ser invadidos.

Os políticos não vão mais acreditar que os pobres gostem de encher a barriga de promessas.

O mundo não vai estar mais em guerra contra os pobres, mas contra a pobreza. E a indústria militar não vai ter outra saída senão declarar falência, para sempre.

Ninguém vai morrer de fome, porque não haverá ninguém morrendo de indigestão.

Os meninos de rua não vão ser tratados como se fossem lixo, porque não vão existir meninos de rua. Os meninos ricos não vão ser tratados como se fossem dinheiro, porque não vão existir meninos ricos.

A educação não vai ser um privilégio de quem pode pagar por ela.

A polícia não vai ser a maldição de quem não pode comprá-la.

Justiça e liberdade, gêmeas siamesas condenadas a viver separadas, vão estar de novo unidas, bem juntinhas, ombro a ombro.

Uma mulher - negra - vai ser presidente do Brasil, e outra - negra - vai ser presidente dos Estados Unidos. Uma mulher indígena vai governar a Guatemala e outra, o Peru.

Na Argentina, as loucas da Praça de Maio vão virar exemplo de sanidade mental, porque se negaram a esquecer, em tempos de amnésia obrigatória.

A Santa Madre Igreja vai corrigir alguns erros das Tábuas de Moisés. O sexto mandamento vai ordenar: "Festejarás o corpo". E o nono, que desconfia do desejo, vai declará-lo sacro. 

A Igreja vai ditar ainda um décimo-primeiro mandamento, do qual o Senhor se esqueceu: "Amarás a natureza, da qual fazes parte". Todos os penitentes vão virar celebrantes, e não vai haver noite que não seja vivida como se fosse a última, nem dia que não seja vivido como se fosse o primeiro.

[Palavras inspirativas de Eduardo Galeano!!

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

O Presente de Natal da Presidente Dilma



O presente da presidente Dilma ao povo do semiárido nesse Natal já está decidido: uma cisterna de plástico.

A presidente é uma excelente gerente, pessoa íntegra e acima de qualquer suspeita. Quando criou o “Água para Todos” nos encheu de alegria. Afinal, agora iríamos acelerar a construção das cisternas para beber e produzir. Mas, a presidente preferiu doar centenas de milhares de cisternas de plástico para os nordestinos. Descartou o trabalho histórico da Articulação no Semiárido Brasileiro (ASA) e vai trabalhar exclusivamente com os estados e municípios.

Claro que essa decisão está acima de qualquer interesse eleitoreiro, ou dos coronéis do sertão, ou dos 10% das empresas fabricantes do reservatório. Dilma é uma mulher honrada.

Claro que os empresários enviarão junto com as cisternas pedagogos, exímios conhecedores do semiárido, que farão a educação contextualizada realizada a duras penas por milhares de educadores da ASA. Esses pedagogos evidentemente conhecem o semiárido, o regime das chuvas, a pluviosidade de cada região, como se deve cuidar dos telhados, das calhas. Irão pelo sertão, pelas serras, pelos brejos, gastarão dias de suas vidas em meio às populações para realizar com um cuidado sacerdotal as tarefas que a questão exige.

Claro que os políticos farão, antes de entregar as cisternas, uma crítica ao coronelismo nordestino, ao uso da água como moeda eleitoral, afinal, já superamos os períodos mais aberrantes da política nordestina.

Quando a cisterna quebrar os pedreiros capacitados saberão reparar os estragos, sem depender da empresa e as cisternas de plástico não virarão um amontoado de lixo no sertão.

As empresas também enviarão agrônomos para dialogar com as comunidades como se faz uma horta com a água de cisterna para produção, uma mandala, uma barragem subterrânea, uma irrigação simples por gotejamento. Claro, o interesse das empresas e dos políticos é continuar o trabalho pedagógico da ASA tão premiado no Brasil e outros lugares do mundo.

Não temos, portanto, nada a protestar. A presidente e a ministra Campello são exímias conhecedoras do Nordeste, mesmo tendo nascido no sul e sudeste. Conhecem cada palmo de da região, dessa cultura, cada um de seus costumes. Claro que não nos enviarão mais sapatos furados, roupas rasgadas em tempos de seca, como acontecia antigamente. Até porque o trabalho da ASA eliminou as grandes migrações, a sede, a fome, as frentes de emergência e os saques. Mesmo não sendo nordestinas, nem jamais tendo vivido aqui, conhecem a região melhor que o povo que aqui nasceu ou aqui habita. Portanto, gratos por tanta generosidade.

Vamos conversar com os milhões de beneficiados envolvidos na convivência com o semiárido. Eles vão entender as razões da presidente e da ministra e vão retribuir com a generosidade que lhes é peculiar.

O povo do semiárido jamais esquecerá que, no Natal de 2011, ganhou como presente da presidente Dilma Roussef uma cisterna de plástico.


Roberto Malvezzi (Gogó)*
15/12/2011

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*Integrante da Comissão Pastoral da Terra (CPT)

sábado, 10 de dezembro de 2011

Duplo sentido [Clarice Lispector]


Não te amo mais
Estarei mentindo dizendo que
Ainda te quero como sempre quis
Tenho certeza que
Nada foi em vão
Sinto dentro de mim que
Você não significa nada
Não poderia dizer mais que
Alimento um grande amor
Sinto cada vez mais que
Já te esqueci!
E jamais usarei a frase
Eu te amo!
Sinto, mas tenho que dizer a verdade
É tarde demais...

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Filosofar é aprender a morrer



A filosofia e a religião teem em comum a convicção de que a angústia impede de viver bem. E como o medo do irreversível mais implacável que convivemos é a morte, tanto uma como a outra trataram, a seu modo, de "resolver" este problema que aflige o ser humano.

A religião criou um mundo visível (aos olhos da fé), sonhado, e querido por muitos, que dá a certeza da salvação,  ou seja, a vida eterna. Ou na continuidade do espírito em outras vidas, ou em uma outra vida, "novo céu e nova terra"[1], ao lado do Sagrado, a salvação, geralmente se dá mediante a fé, por obra e graça da divindade.

Já a filosofia, encara essa salvação, não como uma obra de Outro, de um Ser "transcendente", mas por obra pura e simples de nós mesmos. A filosofia desafia o ser humano a encontrar suas saídas por si próprios, pela via da razão. "Filosofar é aprender a morrer"[2].

Se pensássemos que o bem-estar não é o único ideal sobre a terra, mas que a liberdade também é um bem a ser perseguido, podemos pensar que a religião faz da morte uma ilusão, e corre o risco de fazê-lo ao preço da liberdade de pensamento.

Saber lidar com a presença da morte é também viver bem. Saber que ela chegará e ficar tranquilo com isso, sem a necessidade de ter que ir (ou voltar) pra algum lugar onde a vida continue é também aprender a viver. A morte faz parte da vida. Não precisamos negá-la! Assim diz F. Pessoa: "O próprio viver é morrer, porque não temos um dia a mais na nossa vida que não tenhamos, nisso, um dia a menos nela”[3]

No ponto de vista dos filósofos, já que o dos religiosos é, com certeza diferente... Filosofar, mais que acreditar, é, no fundo, preferir a lucidez ao conforto, a liberdade à fé. Trata-se, em certo sentido (é verdade!) de "salvar a pele", mas não a qualquer preço![4]



[1] BÍBLIA SAGRADA. Apocalipse.
[2] MONTAIGNE. Ensaios. Livro I. Cap. XX.
[3] PESSOA. Fernando. Livro do Desassossego.
[4] FERRY, Luc. Aprender a viver: Filosofia para os novos tempos. (Texto Adaptado)

sábado, 5 de novembro de 2011

FDS


Fim de semana frio
a preguiça fazendo pirraça
o frio pirraçando o dia
a semana chegando ao fim.

Eu curtindo preguiça,
fazendo pirraça,
fria pipoca
do filme sem graça.

Fim de semana
frio,
findando em mim.

sábado, 13 de agosto de 2011

Vaga-lumes e Ternura

Uma manhã de domingo.
Sol no horizonte,
ventinho frio ainda.


Uma fresta de luz na sua face
adormecida, a bela...


A menininha, tão linda, tão doce!
Acorda e vê o dia esperado amanhecer.


Corre pro outro quarto, pula na cama
e com um beijo quentinho, 
faz o homem se sentir um super herói!


- Feliz Seu Dia, Papai!! Ela diz.
E foram passear e o dia curtir.




Indo de carro para a praia,
Ela sempre ganhava a aposta,
via primeiro a próxima cidade!!
No final da viagem,
ele devia sorvete, pipoca, parque, dancinha sobre os pés ...




Chegando lá,
uma casinha de madeira, com estofadinho!
Lindo!! 
- É pra minha boneca, papai! Ela dizia!!
Mas isso ele não deu...


Depois do almoço gostoso,
soneca... zzZZZ


Mas que surpresa ao despertar!!
Estofadinho florido,
Caminha, estante, mesinha, cozinha...
Tudo de madeira.


Papai, um artesão!


Voltar pra casa!!
Não há nada melhor...
Dormir quentinha, amada, querida, cuidada!!


Mas espere!!
Papai e mais uma de suas surpresinhas...
- Filha, durma bem, viu? Peguei essas estrelinhas pra você!! Veja!!
E então, de uma caixinha de fósforo, 
eu via as estrelinhas saindo, 
e piscando no céu do quarto!


E hoje era pra ser um dia especial pra ele...


Meu Super-herói!!
Papai!!




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P.S.: As estrelinhas eram vaga-lumes... Mas isso eu só descobri depois de grande!! rssss
Paizinho, eu te amo!


quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Brinde à Mistura


Um brinde a todas essas deliciosas misturas
De sentimentos humanos em sagrados escritos
Nesses textos que são música
Teológica arte de tornar poema
Pensamentos sobre Deus
Sentimentos escondidos
Misto de mortes e vidas
De sacro e profano
De histórias e mitos

Teologia também é transgressão
De uma fala que express'entre linhas
O grito de um corpo tão belo
Um corpo... que corpo...

Teologia é essa deliciosa mistura:
É boca...
É pele e arrepios...
Mistura de cheiros:
De banho e suor
De lençol e libido
Entre o doce e forte tato
Ato de amar

E eu brindo a esse corpo
Objeto de tantas misturas:
Imanência...
Transcendência...
Carne e espírito...
Pureza e pecado...
Corpo e sangue... pão e vinho...


Por Jeyson Rodrigues e Anísia Neta.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Mulher Balzaquiana



E aprender a viver
é viver a travessia.
Não é somente chegar...
não é o antes ou o depois,
é exatamente o agora.
É o caminho.

Attraversiamo!
01.07.1981

sábado, 11 de junho de 2011

Um ano de namoro!!


Nasceu pra me curar,
resistiu às intempéries, e
me pegou de jeito...

Me apaixonei!!!
Hoje, ele vive pra mim e eu dou vida a ele!!
Um namoro de um aninho!!!

Parabéns Prosa e Verso entre Amigos!!!
Obrigada a tod@s vcs padrin@s desse amor!!!

sábado, 4 de junho de 2011

[Des]Construir

A continuidade da [des]continuidade...
toda a história de vida - passado
o chão por onde se constrói - o presente
as respostas dos porquês,
o documento do que se foi...

[Des]construir...
edificando o presente,
mudando, vivendo, sentindo, 
parando, sofrendo, erguendo...
Futuro.

E a vida é isso...
passado, presente e futuro!
Na mesma linha do tempo.