quarta-feira, 21 de junho de 2017

Minha Maternidade Real

Desde que meu filho nasceu não tenho me reconhecido. Todo mundo fala que a maternidade muda uma pessoa para sempre. E a gente acha que essa mudança é pra melhor. Melhor ou pior não é a questão, e sim que nossa identidade muda. Até nos encontrarmos em meio à essa mudança leva tempo e provoca algumas dores.
Penso que nem toda mulher precisa passar por essa experiência de ser mãe. Nem toda mulher quer essa mudança tão radical. Até porque não é apenas uma experiência, é uma mudança de vida. Sem volta!

Com um bebê de 5 meses em casa e ainda de licença maternidade percebo que ter filho é pra quem não tem o que fazer. Se a gente já tem uma vida corrida, vive querendo que o dia tenha mais de 24 horas, pra quê arranjar uma criança? Pra se lamentar pro resto da vida? Ou pelo menos pros próximos 10 anos de vida? (Por falar nisso, quando é que uma criança já pode ficar sozinha em casa? Com 10, 12 anos?).
Que inveja eu tenho do meu companheiro! Pode sair a hora que ele quiser ou precisar. Não precisa se levantar 4, 6 vezes na noite pra dar de mamar. O bebê não chora querendo o peito dele e vive relativamente bem sem sua presença integral. Pode sair pra ver amigos, não está com o corpo deformado e ainda ganhou um filho pra todo mundo achar ele o máximo quando ele o carrega na rua ou quando aparece uma foto deles dois nas redes sociais. Ser pai parece bom, mas já não posso dizer o mesmo de ser mãe...
Dizem que quando eu voltar a trabalhar, melhora. Que minha identidade de mulher, profissional, aos poucos retoma a superfície e vai se encaixando nessa nova identidade-mãe que chega chegando, desbancando tudo e se achando a única dona do pedaço...
Eu sinto falta de tanta coisa... E queria ter uma graninha no fim do mês... Eu queria poder voltar a fazer poupança. Pelo menos queria não ficar no vermelho... Eu queria poder viajar, relaxar, dormir na hora que eu quiser, não acordar de madrugada... Eu sinto falta da minha vida! Sinto falta de me encontrar com meus amigos, não precisa nem ser de noite, nem ser num bar (o que seria o céu!). Pode ser à tarde, na casa de uma amiga... Queria poder conversar por horas, assistir filme de legenda e poder ler cada frase com atenção. Queria poder ler um livro! Mães de todo Brasil, sejam sinceras(!!), quando vocês leram um livro inteiro depois que seus filhos nasceram? E tô falando de leitura com atenção, pra estudar... Qual a idade deles? Com quem e onde eles estavam enquanto vocês estavam podendo se deliciar com a leitura?? Como faz uma dissertação com filho pequeno? Como faz pra continuar com seus projetos de vida sem ter que gastar todo o seu dinheiro com babá e hora extra? E quando é que terei um bom momento com o companheiro? E uma boa noite de sexo? Quando poderemos sair pra nos divertir sem nos preocuparmos com filho? Por que as pessoas têm filhos se sabem que o casamento vai estar em privação por tempo indeterminado? ...

Dia desses vi na internet uma pesquisadora que escreve sobre isso: mulheres que se arrependeram de ter filhos. E que mesmo depois de anos, elas continuam achando que nem toda mulher precisa ter filhos e que apesar de amarem seus filhos, se arrependem de tê-los tido devido as consequências que uma criança gera na vida da mãe. (Vejam aqui e aqui)
Definitivamente, eu não devia ter tido nesse momento. Mas agora que não posso mais voltar atrás, o que fazer? Aceitar? Resignar-me? O que fazer para não viver triste e se lamentando, como uma pessoa chata e mau humorada? (Os links acima dão algumas soluções.)
Meu filho é uma gracinha! Está bem de saúde!! Minha família veio de longe passar o feriado com a gente só por causa dele. E foi maravilhoso nosso encontro. Já marcamos para as férias nos vermos de novo!! Isso é muito bom. Aproximar da família, ter bons momentos com todos. Mas isso não é a minha vida. Isso é férias e feriado, não é cotidiano. E viver de férias e feriado  não é a minha praia...


Descobri que amar é cuidar. Que amor não é sentimento. Amor é entrega, é abnegação, é trabalho. E eu não estou falando de amor sem carinho, porque este é desatencioso e acaba caindo no descuido. Mas amor é antes de tudo ação e não sentimento. Diante disso, posso dizer que amo meu filho. Mas está longe de ser a vida que pedi a Deus... Meu sentimento hoje é que a maternidade roubou minha vida de mim.


domingo, 14 de maio de 2017

Sobre Orquídeas, Filho e o Tempo



Ano passado eu e meu companheiro ficamos grávidos. Foi uma grande surpresa!! 
Um tempo depois, pensei num filme daqueles de "Sessão da Tarde" que assisti faz tempo. 28 dias. É um filme com Sandra Bulloc onde ela precisou ficar internada por 28 dias numa clínica de recuperação para viciados e lá ela ouviu uma lição que devia aprender a cuidar bem de si e de outras pessoas. Mas para isso, ela primeiro devia cuidar bem de uma planta, caso a planta não morresse, que ela começasse a criar um animal, e por fim, ela estaria pronta para cuidar de um filho e de si mesma.
Quando fiquei grávida, não sei porquê, pensei nesse filme. E pensei que as plantas de que havia cuidado em 2015 morreram e o único animal que tive na vida, um peixe, foi "assassinado" por um gato de rua que entrou em minha casa e capturou meu peixe dentro do aquário...
Sem pensar na história do filme (talvez apenas inconscientemente), ano passado comprei uma orquídea para alegrar o apartamento onde morava com meu companheiro. 
Um mês com a orquídea até que suas flores murcharam e caíram. De lá pra cá, só folhagem...
Cuidamos da orquídea nesse tempo, mas confesso que muitas vezes a orquídea cuidou de si mesma... Fizemos uma mudança de cidade e alguns períodos viajando, longe de casa. Mas também fui ao horto e comprei um vaso específico para orquídeas e aditivos orgânicos e adubos próprios para a planta. Aah sim! Também tivemos ajuda especializada da sogra para fazer esse manejo. É bem verdade que a orquídea precisou ser resistente às intempéries de seus donos. Afinal, um ano é bastante tempo... e nesse período muitas águas rolaram, e muita falta d´água também.
Mas um ano se passou e numa manhã despretensiosa, a orquídea floresceu.
Com a gestação foi diferente. Prioridade em tudo. Mil cuidados. Todos os exames e pré-natal em dias. Fiz de tudo para que o parto fosse natural, mas infelizmente não deu. Uma intervenção cesariana de urgência. No fim, tudo correu bem e 40 semanas e um dia depois... em janeiro desse ano, Ravel chegou.
Com um filho nos braços de quase 4 meses e minha orquídea florescendo (ah sim... demorei uns 3 dias para conseguir terminar esse texto e nesse período meu mandacaru também floresceu!!) me veio a ideia de que filho e orquídea tem tudo a ver. Os dois precisam de tempo. Tempo para maturar. Tempo para crescer. Tempo para responder aos seus cuidados. Tempo para florescer. E na maior parte do tempo, convivemos com as folhagens, com a rotina, com a simplicidade, com o trivial, com o trabalho do manejo, dos cuidados... às vezes até com a escassez d´água... afinal, não somos de ferro. É mentira dizer que mãe aguenta tudo. Mãe também é gente e precisa de cuidados, de afeto, de tempo!
Há que resistir!! Às intempéries. À imaturidade do filho. Ao não retorno de tanta doação. Há de se ter ternura. Para persistir. Para perseverar. Para poder ver florir. Para poder ver nascer o amor. Sim! Amor de mãe é construído! Não é inato! Tenho convicção! Assim como a flor da orquídea não é inata. Se não cuidar, ela morre e não vinga. Não floresce. A flor requer tempo. O amor pelo filho também.
E o fato de minha orquídea ter florescido já é um bom sinal!! 😉